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Textos Avulsos

sexta-feira, 30 de abril de 2004

Tradução de hoje dos verbos...

.casa....jogar taipei.
.noite....sair sem rumo.
.cerveja....beber, beber.
.mesa....colocar a cerveja.
.bar....comprar a cerveja.
.amigos....dividir o copo.
.conversa....falar mal dos outros.
.risos....espantar o mau humor.
.olhares....descobrir algo mais.
.risos....exercitar os músculos.
.conversa....falar mal de si mesma.
.carro....entregar pro amigo que não bebe.
.casa....chegar no seu lugar.
.cama....deitar ao lado de alguém.
.sono....dormir e sonhar com ele.

Tudo pode mudar ao aparecer o sol no horizonte...

terça-feira, 27 de abril de 2004

Não espere muito dos outros... e se surpreenda!

Ela já não dorme mais. Chega tarde em casa todos os dias. Diz que sai com amigos. Não conheço esses amigos. Nunca vi nenhum deles. Ela acorda na hora certa para trabalhar toda manhã. Não posso reclamar. Ela gasta o seu próprio dinheiro. Não posso julgar. Ela trabalha para sair de noite com seus amigos. Não posso reprovar. Sinto falta dela.

Ela sai de manhã pro trabalho e só volta tarde depois dessa saída com os amigos. Ela não era assim. Éramos amigos. Ela pode estar namorando. Eu não saberia dizer. Escuto ela bater a porta da cozinha todos os
dias. Chegando ou saindo.

Ela pode estar se drogando. Eu não poderia negar. Ela bebe. Não fuma. Ela cozinha bem. Faz um macarrão com molho de tomates secos maravilhoso.

Ontem deu a louca nela e ela chegou cedo. Ainda não era nem de noite. Escutei a porta batendo, mas não levantei da cama. Deixei ela pensar que eu estava dormindo, como sempre.

Depois de uns 40 minutos me chamou no quarto e disse que queria conversar comigo. Levantei intrigado e ao me deparar com aquilo, minhas pernas tremeram. Ela tinha feito o tal macarrão! Arrumou a mesa da varanda com dois pratos e duas taças. Também tinha o queijo ralado na hora do jeito que eu adoro. Trouxe até uma garrafa de vinho!

Ela estava banhada. Tinha mudado a roupa do trabalho. Eu nem escutei quando ela entrou no chuveiro. Eu estava de pijama e com os cabelos assanhados. Pedi para tomar um banho e ela disse que o macarrão iria esfriar. Fiquei sem graça por estar de pijama. Ela notou. Correu no seu quarto e vestiu sua camisa velha de dormir. Ela queria me agradar.

Eu não entendia. Teria acontecido algo?

Não. Ela apenas queria conversar comigo. Minha mãe.

sexta-feira, 23 de abril de 2004

Domingo

Acordou e não reconheceu o tecido daquele lençol. Onde estavam os travesseiros? Sua cabeça estava bem próxima ao seu joelho. Conseguia sentir o cheiro da ferida ainda úmida na coxa esquerda. Tentou mexer os braços. Um deles não respondeu. Parecia que formigas apressadas e desordenadas (existe?) caminhavam sobre seu cotovelo e ombro. Mexeu o outro braço procurando com a ponta dos dedos algo familiar. Tocou o chão. Estava frio. Era de madeira.

Notou que estava nu. Só o lençol lhe protegia de olhos alheios. Lembrou de abrir os olhos. Viu um cabelo encravado no braço que tinha formigas caminhantes. Mexeu a cabeça um pouco para trás afastando do nariz aquele amargo que saia da ferida. Tentou esticar as pernas. O lençol era pequeno. Estava frio. Dobrou as pernas novamente. O pescoço doía na posição longe do joelho. Ainda assim era melhor que o cheiro de sangue sujo.

Virou um pouco a cabeça e conseguiu ver que o colchão era bonito. Branco. Cheiroso. Percebeu que o lençol também era branco. Tinha manchado o lençol de sangue. Teria que pedir desculpas ao dono. Mas a culpa era que quem o deitou ali. Depois resolveria isso.

Mexendo apenas os olhos procurou sua roupa. Tinha saído de casa de calça jeans, camisa de malha azul, tênis e a mochila nas costas. Nenhuma roupa no chão. Talvez estivesse pendurada em algum lugar. Não conseguia levantar a cabeça. Talvez daqui a pouco. Conseguiu ver a porta do cômodo. Não parecia ser um quarto. A não ser pelo colchão. Não conseguia ver janelas. Sua visão se restringia a um palmo acima do chão.

Passou a língua nos lábios e sentiu um gosto repulsivo. Dentro da boca estava pior. Era um gosto parecido com o cheiro da ferida. Cabo de guarda-chuva seria algo que teria aquele gosto. Sentiu os dentes doerem. Era o frio.

Tentou novamente levantar a cabeça. O pescoço ainda doía muito. Conseguiu enxergar a parede. Era amarela. Não o amarelo do ouro e das riquezas, mas o amarelo do embaçamento do dia-a-dia e do envelhecimento das coisas. Teve que fechar os olhos. Não viu as roupas penduradas tão próximas. Esticou as pernas novamente. Estava frio. A ferida reclamou. Sujou ainda mais o lençol. Depois pediria desculpas. Precisava levantar.

Desistiu.

Fechou os olhos e esperou.

quarta-feira, 21 de abril de 2004

Verbos...

.casa.
.noite.
.cerveja.
.mesa.
.bar.
.amigos.
.conversa.
.risos.
.olhares.
.risos.
.conversa.
.carro.
.casa.
.cama.
.sono...

terça-feira, 20 de abril de 2004

Um dia...

Acordo “no susto” com o seu grito. Ah, como eu odeio aquele grito. Ele sabe que eu odeio. Entra pela porta do quarto já banhado e com a toalha na cintura e me grita bom dia! abrindo os braços ao mundo, olha pra minha cara emburrada, depois que eu consigo levantar a cabeça e tirá-la debaixo dos travesseiros e sorri completando a frase flor do dia... Ele sabe que esse final da frase me faz sorri. Mesmo emburrada e puta por ele ter me acordado gritando eu sorrio para ele e respondo baixinho bom dia.

Me arrasto pra fora da cama, lavo o rosto e escovo os dentes... morro de preguiça de tomar banho de manhã. Nem olho como está o meu cabelo, pois sei que deve estar todo pra cima e desordenado. Só vai melhorar mesmo depois do banho. Na mesa já está o jornal que ele deixou meio lido. Coloco a água pro café no fogo. Pego umas bolachas e a manteiga. Enquanto espero a água ferver e ele se arrumar fico lendo os quadrinhos e o resumo das novelas que eu nunca assisto. Nem sei qual a cara que a Célia tem, mas sei que ontem ela casou com o Ricardo.

A água ferve e preparo o café. Coloco nossas duas canecas grandes na mesa. A minha é azul com o meu nome escrito. Presente de um antigo namorado. Eu gosto do sabor do café bem doce quando mistura com o da pasta de dente. Parece que estou mergulhando num barril de menta. Arde meu céu da boca. Ele ri da careta que eu faço. Nós rimos juntos.

Deixo de lado o “imperdível” capítulo de hoje da novela e conversamos um pouco sobre o que pretendemos fazer durante o dia, o que faremos no fim de semana. Ele avisa que vai trazer um colega do trabalho aqui pra casa hoje. Quer que eu passe na padaria e traga um tira-gosto? Ele sorri e me pergunta como eu consigo ser tão simpática depois de ter acordado com aquela cara tão emburrada. Ah, como eu odeio aquele grito.

Quando ele sai ainda tenho uma hora pra me arrumar. Acordo mais cedo com o seu grito e me levanto só pra conversar com ele.

Ficou combinado então que eu passaria na padaria à noite antes de vir pra casa e compraria um vinho, patê e torradas. Eu adoro ir à padaria. Se eu tivesse grana eu ia todo dia. Também adoro quando vem gente aqui em casa. Minhas amigas sempre aparecem, mas elas só ligam quando já estão no portão, e já vêm com uma bandeja de salgadinhos e uma Grapette. Gosto de preparar a casa quando vem gente. Eu já disse a elas um dia eu num atendo o interfone e vocês vão comer esses salgadinhos na calçada.

Ele costumava dormir aqui algumas vezes durante a semana quando ficávamos conversando até tarde e dava preguiça de ir embora. Nos fins de semana ele já trazia a mochila. Já faz um mês que ele se mudou de vez pra cá. Eu morava sozinha antes. É bom ter ele por perto. É bom morar sozinha com alguém.

segunda-feira, 19 de abril de 2004

ah, o gosto azedo
regado a frio e medo
ao desafio
ao envio
sem corte ou ressentimento
errando e o arrependimento

É tão forte o momento
tão vazio o sentimento
vc secou
o que já era cinza, amarelou
o caminho, a estrada
já não leva a nada
só ao esquecimento

busque o subúrbio da vida
curar a doença, a ferida
busque anestesia
busque o verão
a primavera ou quem dera
a não estacão

o vazio é ao meu lado
doentio e pesado
não é mais o colchão
nao pesa mais a pluma
nem a intenção
sou de novo dono da minha vida
ou será enganação?

sexta-feira, 16 de abril de 2004

Amigos

Somos três amigos. Não importa quem vai dirigir. Os outros dois correm, rindo, brincando, brigando para pegar “o lugar da frente”. Sentar com um cinto lhe amarrando só pra ver o mundo chegar antes. O “perdedor” senta atrás. O “perdedor” ouve o som melhor. Não ouve direito a “conversa da frente”. Tem mais espaço. Vê um mundo já visto antes pelos “da frente”. É sempre bom entrar no carro rindo de nós mesmo por agirmos assim. Como as crianças que ainda temos em nós.

Se a música é chata ou repetida sempre tem um que entoa, desafinando, uma canção antiga. Daquelas que não tocaram nas rádios. O som é desligado e continuamos a canção em coro. Daí é só emendar em uma outra canção. O trânsito sempre está chato. Dentro do carro é divertido. Somos nós em nosso mundo. Um mundo de três amigos.

O nome é “tomar um café”. Pode ser café, cerveja, refrigerante, água, vento. Não importa. Não importa o local também. São quase sempre os mesmo lugares. Até um de nós descobrir um local novo. Ou ter a idéia de ir a outra cidade. Só pra “tomarmos um café”.

Para mim é um momento único. Falar mal dos outros. Falar mal de nós mesmos. Discutir filosofia e como ela atinge nossas vidas. Contar sobre um livro que lemos, um programa que assistimos. Indicar uma nova banda que ouvimos. Discutir sobre como a cidade e as pessoas mudaram. Fazer planos para o futuro.

Nesses momentos me sinto amada e querida. A tristeza e o “amargo” parecem se esquecer de mim. Sinto uma alegria que sentia quando criança, ao ser levada para a praia pelos meus pais para tomar banho de mar. Rolar na areia sem ser criticada ou julgada. Se entregar à diversão. Rir alto.

Tomar um café pode ser compartilhado com outros amigos. Isso é muito bom quando acontece. Um amigo que também brigou pelo canto da frente no carro ou que nos encontrou num dos nossos lugares. Um amigo que aos poucos se sente como nós. Felizes apenas por estarmos juntos. Mesmo nos dias de mau humor.

Um livro é pra ser lido sozinho...
Televisão é pra ser vista com o(a) namorado(a)...
Café é pra ser tomado com os amigos...

quinta-feira, 15 de abril de 2004

Carlinhos

Carlinhos mora com a mãe e o pai. Seu irmão mais velho já é casado. Ele é bem mais velho que Carlinhos. Seu irmão mais novo morreu. Carlinhos não gosta de lembrar do irmão mais novo. Deixa ele triste. Seu nome é João. Carlinhos não gosta de pensar nele como alguém que já não é mais. João morreu com 16 anos. Tiro de espingarda de chumbo na coxa. Ele morreu. Carlinhos nunca explica como um tiro na coxa matou o João. Carlinhos fica com um olhar estranho quando perguntamos sobre isso. Carlinhos é moreno dos olhos verde. Ele puxou os olhos da mãe. O moreno do pai. Eu não sei o nome do pai nem da mãe do Carlinhos. Eu já fui na casa do Carlinhos. Ele me apresentou-os como “esse é meu pai” e “essa é minha mãe”. Tudo bem.

Carlinhos é calmo e calado. Carlinhos só fala quando bebe. Carlinhos bebe muito. Carlinhos não fala dele ou de sua família. Carlinhos observa tudo e todos. Ele fala das pessoas que vemos todos os dias. Ele fala coisas que não vemos todos os dias nessas pessoas. Carlinhos não bebe com quem ele não conheça. Acho que é medo de falar.

Carlinhos não trabalha. Carlinhos acorda ao meio dia com o cheiro da comida que sua mãe prepara. Carlinhos levanta, toma banho, dá um beijo na testa de sua mãe e senta à mesa com ela para almoçar. A mãe do Carlinhos sempre pergunta para onde ele foi à noite anterior e Carlinhos responde a ela com um sorriso. Carlinhos não fala. A mãe do Carlinhos entende e continua a comer.

No final da tarde Carlinhos vai pra praça conversar com os amigos. Carlinhos não fala. Carlinhos observa tudo e todos. Carlinhos janta um sanduíche ou um salgado numa lanchonete na praça. Para não dar trabalho à sua mãe. A mãe do Carlinhos é muito bonita, mas ela é triste. Seu rosto é sofrido. Seus olhos não brilham mais.

Desde quando o João morreu que Carlinhos não fala. Carlinhos só fala quando bebe. Carlinhos bebe muito. Carlinhos não se droga. Ele sempre recusa. Até eu já ofereci.

Todas as noites nos encontramos na casa de algum amigo para beber. Eu não bebo. Eu fumo Carlton. Eu falo. Eu só não falo quando me drogo. Eu observo. Observo o Carlinhos. Observo nossos amigos. Observo um gato andar cautelosamente por cima do muro. Observo uma senhora caminhar lentamente pela rua carregando todo o peso da sua idade.

Eu apenas observo. Não consigo falar sobre isso. É o meu modo de ver. Ninguém entenderia.

Eu namoro com o Carlinhos. Ele me viu e me achou bonita. Foi difícil ouvir sua voz a primeira vez. Ele sempre estava calado. Ele não bebia perto de mim. Um dia eu me escondi perto de onde ele estava bebendo com os amigos. Eu ouvi a sua voz. Me apaixonei. Fui falar com ele e ele emudeceu. Fiquei triste. Hoje eu namoro com ele. Não pergunte como foi. Eu não vou explicar.

quarta-feira, 14 de abril de 2004

As perguntas da vida

Quando bebês, confiamos que a vida é do modo como nossos pais nos mostram. Não há questionamento. Vivemos uma vida feita por eles. Somos felizes...

Quando crianças, passamos a perguntar o porque de tudo. Sempre há umas 30 perguntas coçando a nossa cabeça de criança. “Porque você pode e eu não posso?” “Porque eu tenho que obedecer a você?” “Porque eu tenho que dormir cedo?” Nessa época as perguntas são muito voltadas para o nosso umbigo. Vivemos uma vida egoísta. Somos felizes...

Ainda na infância, começamos a fazer perguntas sobre o mundo e as pessoas do nosso mundo. Porque o céu é azul? Porque está escuro? Porque ele (a) está chorando? Tudo passa a ser interessante por ser novidade. Vivemos uma vida de descobertas. Somos felizes...

Quando adolescentes (eu odeio esse rótulo), passamos a nos perguntar como o nosso mundo nos vê. Porque ele (a) não olha pra mim? Porque eu não fui convidado (a) pra festa? Porque eu não consigo emagrecer/engordar? As preocupações passam a ser com a sociedade. Eternas amizades são iniciadas e você encontra o “amor da sua vida”. Vivemos uma vida imediatista. Somos felizes...

Quando entramos na vida adulta, passamos a nos perguntar como. Como pagar as contas. Como viver. Como voltar. Esquecemos de nos perguntar o porque das coisas. O porque do nosso mundo. Vivemos uma vida feita por eles. Somos felizes?

terça-feira, 13 de abril de 2004

Para todos aqueles que acreditam que a vida faz sentido....

Da próxima vez que acordar, lembre-se que o mundo não gira em volta de você...você pode dizer até assim: “ é lógico que não!” mas mesmo assim, pense bem, analise o que acredita, pense em sua vida, em sua família, seus amigos, seu (sua) namorado(a), tudo que já lhe aconteceu, em todos aqueles que passaram por sua vida...e por todos aqueles que SOMENTE passaram por ela...pense naquilo que você ama...não poderia ser outra coisa, é tão perfeitamente bem estruturado para aquilo que você quer...para aquilo que durante toda a sua vida você procurou....é momentaneamente eterno...eterno enquanto durar...
Todas as dificuldades foram feitas sob medida para você, todos os ganhos foram programados para o momento certo...aquele momento que você mais precisava ele veio! As pessoas que você conheceu eram perfeitas para aquilo que você precisava, elas parecem ter passado por você só pra resolver aquele probleminha...ou problemão!
Pensou em tudo isso? Agora pare de pensar que o mundo gira em torno de você...nada disso é programado...tudo é baseado nas contingências que giram em torno do SEU projeto de existência...você existe porque você quer...você sofre porque você quer...o mundo é um personagem...um personagem principal que caminha lado a lado com você para construir passo a passo a sua vida.
Somos nós que projetamos a vida, inventamos tudo e somos responsáveis por tudo! Até mesmo o bom Deus, que recebe o direito de ter seu nome escrito com letra maiúscula, é um personagem que serve para colocarmos a culpa nele quando o nosso sócio (o mundo) faz algo que não estava e nossos planos (”deu errado porque Deus quis”...”se eu não consegui é porque Deus me reserva algo maior”) tudo bem, agente até as vezes enche a bola dele(” deu tudo certo graças a Deus”).mas no final das contas ele sai perdendo....
Ok...mas o mundo não gira em torno de você, ele é personagem na vida de TODOS e só nos resta aceitar isso. Temos que aceitar que NINGUÉM tem um plano para nós e que a história NÃO é apontada para uma evolução, as coisas acontecem porque os indivíduos que existem no mundo fazem acontecer... as escolhas são deles, isso quer dizer, a escolha é nossa.
Da próxima vez que você acordar, lembre-se que o mundo não gira em volta de você...lembre-se que se você morrer, o mundo não sentirá a sua falta...Alguns vão sentir...aqueles alguns que participaram do seu plano existencial...o resto não terá nem a notícia.
Somos seres que nascemos para a morte, vivemos em função do futuro único: a morte. O que fazemos nesse meio tempo é o que chamamos de vida...isso mesmo, a vida é um processo que, somente com a morte, se totaliza. O céu PODE ser mentira, o inferno PODE ser mentira, a reencarnação PODE ser mentira, o nada PODE ser VERDADE...o nada após a morte...o completo desaparecimento....você não era nada antes de nascer....e tornará-se nada depois de morrer...
Triste? Isso é uma visão triste do mundo? Pode até ser, mas é uma visão VÁLIDA do mundo...
Tente se movimentar...você se sente preso a algo? Se não, é porque você está CONDENADO a ser LIVRE... Grite, corra, chore, peça desculpas, ou até não peça! Cante, deite, espanque, ame, odeie, acredite em Deus da forma que você quiser, mas não se esqueça de que ele pode não acreditar em você! Cuide de quem você ama, trapaceie no jogo de baralho, lembre-se das pessoas...ou esqueça delas! Papai do Céu pode não estar vendo...APROVEITE A SUA VIDA....o resto é resto...

Sonho

Ontem te vi. Em meu sonho eu te vi. Frases que me dissestes na última vez em que conversamos se embaralharam. Escutei frases nunca ditas por ti. Acreditei serem tuas as frases que eu queria ouvir.

O mundo estava deserto. Estávamos numa calçada, sentados longe da luz. Não passavam carros. Não havia casais namorando nos cantos escuros. Era de noite e a lua estava linda, iluminando teu sorriso tranqüilo. Eu me via no brilho dos teus olhos. Eu também estava sorrindo.

Conversávamos sobre nós mesmo. Não havia medo de dizer o que sentimos. Você me contava coisas que nem sabia que sentia. Sabendo que eu entenderia suas palavras do modo como elas estavam no seu pensamento, do modo como você as sentia. Não havia o medo de ser mal interpretado. Não eram frases pensadas antes de serem ditas. Analisadas em como podiam influenciar no resto da conversa. Não havia medo ou pressa de acabar. Não iríamos embora. Sabíamos a hora certa de falar e de escutar. Exceto quando o pensamento era o mesmo e falávamos a mesma frase juntos. Ríamos da nossa felicidade.

A lua subia lentamente naquele céu estrelado, formando a sombra dos nossos corpos na calçada.

Estávamos de mãos juntas. Dedos entrelaçados. Quando uma corrente de ar passava e nossas mãos se separavam por um instante para que a sua mão ajeitasse meu cabelo, eu sabia que as pegarias e as confortaria novamente. Eu estava tranqüila. Aquela lua nunca iria terminar seu trajeto no céu. O dia nunca iria amanhecer. Eu estaria sempre ali com você. Eu estava feliz. Acordei sorrindo.

Hoje queria te ver. Conversar contigo. Te dizer o que eu te disse no sonho. Deixar você saber o quanto é querido.

segunda-feira, 12 de abril de 2004

Saudade dói

Estou com saudade. Saudade de você. Saudade da tua pele, teu cheiro, teus beijos. Saudade da tua presença, e até da tua ausência quando querias estar só contigo mesmo. Não importava se você estava na sala e eu no quarto, sem te ver. Eu sabia que estavas lá. Não importava se você estava viajando e eu no escritório, eu sabia onde te encontrar se precisasse. Mesmo que eu passasse o dia sem te ver, eu sabia que amanhã eu te veria. Mesmo que o amanhã fosse daqui a uma semana.
Agora acabou. Apenas a saudade me faz companhia. A saudade dói.

Estou com saudade. Saudade por não saber. Não saber mais se continuas tendo dores de cabeça por causa do calor. Não saber mais se continuas fazendo a barba ou se deixastes o cavanhaque. Não saber se ainda usas aquela camisa que te dei. Não saber se fostes naquela consulta que eu marquei pra ti, como me prometera. Não saber se tens comido sanduíche na hora do almoço por preguiça de cozinhar um arroz e um bife. Se aprendestes a jogar xadrez, como tínhamos planejado. Se resolvestes dirigir na faixa da direita, como eu sempre pedia. Se continuas fumando Malboro. Se continuas preferindo água com gás, limão e gelo picado, como eu fazia. Se continuas sorrindo. Se continuas dançando. Se continuas saindo nas noites de sexta pra tomar uma cerveja com os amigos. Se continuas lembrando de mim.

Estou com saudade. Saudade por não saber. Não saber o que fazer com as minhas noites, que ficaram mais compridas. Não saber como encontrar tarefas que me cessem o pensamento. Pensamentos em ti. Não saber como frear as lágrimas diante de uma música que tinha no CD que me destes. Não saber como vencer a dor de um silêncio que nada preenche.

Estou com muita saudade. Nunca mais soube de ti, e ainda assim, a saudade dói.

domingo, 11 de abril de 2004

Amor à primeira vista

O amor à primeira vista...nada mais cinematográfico que o amor a primeira vista...o amor que se baseia nos olhos, que se encontra na imagem do outro e é fortalecido pelo brilho e o esplendor daquele(a) que está ali, feito para o momento.

O amor à primeira vista...nada mais impressionante que o amor a primeira vista...o amor que a segundos não estava lá, e de repente aparece como um fantasma...uma figura mitológica que não se acredita assim que vê, desvia-se rápido os olhos com medo de ser pego em flagrante, mas então aos poucos o medo passa e começa-se deixa fluir o espanto em ver tal figura como se fosse a última vez.

O amor à primeira vista...nada mais imprevisto que o amor a primeira vista...você tem os seus sonhos, suas possibilidades, suas próximas atitudes e em questão de segundos tudo ganha um novo foco. Está ali bem perto, e ao mesmo tempo tão longe, os pensamentos mudam de direção e passam a não mais racionalizar...eles passam a desejar.

O amor à primeira vista...nada mais estético e narcisista que o amor a primeira vista...o primeiro momento é somente a imagem, tal qual ela nos apresenta, os olhos, a boca, o cabelo, o nariz, o corpo...somente o corpo, pois é só isso que se conhece...depois começa a paixão por si mesmo, a paixão por uma imagem sua de como deve ser aquela pessoa, uma mera especulação baseada nas suas expectativas de como você deseja o outro.

O amor à primeira vista é a mais perfeita ligação entre o desejo carnal e materialista e a sua construção subjetiva de como você imagina alguém perfeito, a paixão por um ser imaginário encarnada em alguém que você acaba de ver.

Nada mais sincero que o amor à primeira vista...será?

Ana

Ontem o Beto não veio aqui. Durante o almoço eu avisei que não estaria em casa. Ele me pareceu decepcionado. Preciso conversar com ele.

Ontem saí com um colega de sala. Fomos a um bar. Eu não conhecia o bar até então. Ele queria me pegar em casa. Combinamos de nos encontrar lá. A conversa era lenta. Era chata. Mas era novidade. Toda pessoa com a qual converso em uma mesa de bar procuro algo de único. Cada pessoa tem algo a acrescentar a sua vida. Eu não falei muito, apenas ouvi o que ele tinha para me contar. Eu não falo muito. A cerveja estava gelada. A música era agradável. Estava tocando uma coletânea de músicas que me lembrava a minha infância, quando eu não entendia as letras em inglês e mesmo assim achava lindo o que aqueles cantores cantavam. Ainda hoje é lindo. Eles dizem. Me toca uma canção em particular. No dia em que a ouvi a primeira vez eu chorei. Hoje eu ainda choro. Eu entendo o que ele quis dizer. Ou eu entendia sem saber a letra. Era uma canção bonita. É uma música com algo bonito. A melodia é linda. A voz é agradável. Sonora.

Nas outras mesas, outros casais. Nós não éramos um casal. Eu observava as pessoas nas outras mesas. Era segunda-feira e havia várias pessoas nesse bar. Para quem anda em bar não importa o dia da semana, apenas se o dono abre o bar. Se a cerveja está gelada Se a música é agradável. Bebemos e conversamos. Eu observava. Eu não falava. Pedi pra ir embora. Tinha aula hoje. Ele pediu pra ir a minha casa. Bebemos as cervejas que eu ainda tinha na geladeira. Ele continuou me contando sobre sua vida. Eu apenas ouvia e evitava demonstrar minha impaciência com tal conversa.

Acordei hoje e fui tomar meu banho. Falo “bom dia” a porta do meu banheiro. Uma lembrança me assusta: “Ele dormiu aqui?” Este pensamento só me ocorreu durante o banho. A cabeça ainda está ensaboada. Termino o banho. Volto apreensiva ao quarto, enrolada na toalha, e me certifico que não. A cama está vazia como todos os dias depois do meu banho. Apenas o lençol enrolado por cima dos travesseiros. Acho que dormi enquanto conversávamos. Espero que ele tenha fechado a porta ao sair. Espero que ele não comente nada durante a aula. Chego atrasada na aula. Só assisto à segunda aula. Esta matéria meu colega não cursa comigo.

sexta-feira, 9 de abril de 2004

Roberto

Eu trabalho em um restaurante. Pego dois ônibus para chegar lá. Na hora de voltar pra casa preciso pegar um trem. Não há mais ônibus depois da novela. Eu assisto à novela junto à Ana. Ela almoça no restaurante onde trabalho. Todos os dias. Excetos sábados e domingos. Sábado eu volto de ônibus. Domingo eu escuto música. Não trabalho domingo. Não quero trabalhar domingo. Domingo eu penso. Domingo eu me vejo no pequeno espelho do banheiro. Domingo eu tomo um demorado banho. A dona da casa reclama. Eu moro em um quarto no quintal da casa da Dona Clara. Não preciso acordar a Dona Clara quando chego. Há uma passagem que termina na porta do meu quarto.

A Ana é minha amiga. Jantamos juntos e assistimos à novela juntos. Ela no sofá. Eu sentado em uma cadeira. Juntos. Ana não fala muito. Eu acho que entendo seu silêncio. Não sei se ela entende o que eu digo quando calo. Assustei-me quando criei coragem e pedi pra ir a casa dela depois do trabalho. Foi normal. Foi muito simples. Acho que demorei um mês pra pedir. Eu fui. Ela me recebeu. Jantamos. Eu levei o pão e o suco. Ela me disse que eu era surpreendente. Contei a ela algumas histórias engraçadas que acontecem no restaurante. Ela pensou melhor e disse que o ser humano é surpreendente. Eu sou apenas um ser humano. Eu sou um ser humano.

No restaurante almoça muita gente. O dono diz que poderia ser mais. Não entendo como. Sempre são as mesmas pessoas. Eles almoçam lá todo dia. Assim como a Ana. Exceto sábados e domingos. Eu me pergunto o que eles fazem sábados e domingos. Eu não trabalho domingos. Eu escuto música no domingo. Meu nome é Roberto. A Ana teima em me chamar de Beto. Ainda não me acostumei. Meu nome é Roberto.

quinta-feira, 8 de abril de 2004

Ana

Meu nome é Ana. Tenho 19 anos. Estudo em uma universidade particular próxima a minha casa. Acordei dormindo ainda. Não lembro do sonho, não lembro da hora em que dormi. Levanto e digo “bom dia” a porta do meu banheiro. Tomo um banho rápido, pois estou atrasada. Minha aula começa às 8:00h. Chego quinze minutos atrasada. O professor chega cinco minutos depois de mim. Estou adiantada então. Justifico meu erro no erro do professor. Assisto às aulas pacientemente. Saio ao meio-dia da universidade e almoço no restaurante da esquina, que me vende uma quentinha e um copo de refrigerante por R$3,50.

O Roberto trabalha neste restaurante. Eu o chamo de Beto. Ele me disse que é o seu primeiro apelido. Ele vai à minha casa todos os dias depois do seu expediente e me conta alguma história engraçada que tenha acontecido com os seus fregueses. Sempre acontece algo inusitado. O ser humano é imprevisível. Ele traz pão e leite ou eu compro de tarde e o aviso que não precisa trazer. Lanchamos e assistimos à TV. Só há os canais abertos. Eu reclamo de algum preço alto que aparece em algum comercial e o Beto apenas sorri e eu entendo que o ele quer dizer. Depois que ele conta suas histórias do restaurante passamos a conversar com gestos, grunhidos. Não precisamos mais falar para conversarmos. São assuntos repetidos: “Passa a manteiga.”, “Tua vez de lavar os pratos.”, “Essa novela não muda nunca.”, “Só tem notícia ruim noticiário”. Só voltamos a nos falar com palavras na hora em que termina a novela e o Beto me diz “Boa noite, até amanhã”. Eu respondo com um sorriso e digo “Boa noite”

Depois que o Beto vai embora eu vou pro meu quarto. Coloco minha camiseta velha que uso para dormir. Pego um livro pra ler. Deito no sofá da sala, tiro a havaiana do pé e o coloco no braço do sofá. Minha mãe odiaria ver isso. Não tenho mais mãe. Meu pai mora em outra cidade. Em outro estado. O livro quase sempre é o mesmo. Não me canso de decorar os trechos que mais me intrigam e declamá-los para mim mesma em frente ao espelho do quarto. Tento me convencer de que o autor está errado. Um dia terei lido outros livros dele suficientemente para achar uma contradição. Ou terei lido os livros dos outros autores de minha estante no chão e terei argumentos contra meu autor favorito. Minha estante de livros é formada por livros. Uma fileira de livros em pé, por cima dela há uma fileira de livros deitados para fazer uma prateleira para a próxima fileira de livros em pé.